Como Anda A Sua Capacidade De Ouvir O Que Não Foi Falado?

(…)Cilene é minha secretaria particular. Ela mora em minha casa durante a semana e, na sexta à noite, vai embora para a sua. Ela depende de transporte público e utiliza os trens da CPTM, os quais estão quase sempre lotados. Nessas circunstâncias, para evitar contratempos, as pessoas costumam cuidar muito bem de seus pertences. Certo dia, uma senhora chama a atenção de Cilene. Mesmo com muitas pessoas ao seu redor, essa senhora abre sua bolsa, tira todos os seus pertences de dentro, colocando um pouco em seu colo e outros objetos ao seu lado – qualquer movimento mais brusco levaria tudo ao chão. Depois, ela abriu outra bolsa e começou a fazer o mesmo. Aquilo tudo chama a atenção da minha secretária, mesmo porque aquele não é um comportamento usual em um coletivo lotado e a senhora aparentava estar bastante acostumada com aquela rotina.

Ao chegar à estação final, as duas obrigatoriamente descem. No ponto de ônibus, Cilene vê novamente a senhora, mas, desta vez, paralisada como se não soubesse o que fazer ou para onde ir. Prestativa, Cilene se aproxima e diz:

– A senhora precisa de dinheiro para o ônibus? Eu posso lhe dar! Tome!

Mesmo antes de responder, a senhora começa a chorar comovida e desesperada ao mesmo tempo, pois, ao ser questionada, ela pôde externar todo o seu desespero. Ela não se sentia mais sozinha, pois alguém a ouvia e, entre soluções, perguntou:

– Como você ouviu o grito do meu desespero? Como você percebeu que fui roubada? Você não vai precisar desse dinheiro?

A senhora então contou que guardava o dinheiro da condução do mês dentro de uma bolsinha, enrolado em um lencinho. Quando ela foi procurar o dinheiro, só encontrou o lencinho e a bolsinha. O dinheiro havia sumido e ela suspeitava que havia sido furtada no trabalho.

Que percepção de Cilene! Isso é ouvir o que o outro não diz, é estar consciente de si, do outro e do todo. Isso é empatia, o que, para mim, representa amar. Acho que esta é uma das características que faz de nós seres humanos – ter empatia, se colocar no lugar do outro, perceber o outro, vestir o sapato do outro… Mas a questão é que, na correria quase insana em que vivemos, passamos a não ter consciência nem de nós mesmos. Se não conseguimos nos ouvir, menos ainda temos condições de escutar o que o outro diz.

Certa vez fui à medica para fazer exames anuais de rotina. Após a doutora fazer uma análise geral ela disse: Leila, seus exames acusam que você teve uma pneumonia e está saindo dela agora. Você está com uma fratura espontânea de calcâneo, está com um processo alérgico e desenvolvendo uma possível artrite reumatóide. Com esse relatório eu ri e disse: “vai ver que desencarnei e nem me dei conta porque eu não estou sentido nada disso”.

Só a partir daí me dei conta que havia realmente me sentindo um pouco quente e com dor nas costas. Associei as dores no pé a tal fratura e assim por diante. Sem receio de errar, afirmo que a grande maioria das pessoas não escuta o próprio corpo, a sua intuição, as suas necessidades, seus medos, suas dores, seus sonhos… Sendo assim, como pode escutar o outro?

Sempre digo que a vida é uma experiência espiritual em um corpo material, portanto o nosso corpo é nosso veículo, nossa nave, nosso “Avatar”. Nessa dimensão não tem sentido não cuidarmos dele e deixarmos de garantir a sua melhor performance. Mas, para isso precisamos conhecê-lo, perceber seus sinais, escutá-lo.(…)

Parte de texto retirado do blog de Leila Navarro.

Sobre profjoaobeauclair

Palestrante e Conferencista Internacional. DEA (200-8-2010) Doutorando em Intervenção Psicossocioeducativa pela Universidade de Vigo, Ourense, Galícia, Espanha. Escritor, Arte-educador, Psicopedagogo, Mestre em Educação.
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